ilustração feita com caneta BIC, em Canson Branco 200g, A4 (21x29,7cm), sem moldura
imagens que estão com moldura são apenas ilustrativas
obra parte da série:
anatomina das marés
Há um mar que não termina na pele.
Nesta série, o corpo e o oceano deixam de existir como territórios separados.
Conchas tornam-se olhos. Corais podem nascer de mãos. Cardumes atravessam costelas. Ondas ocupam cabelos, medusas encontram órgãos, tentáculos prolongam gestos. Aos poucos, aquilo que pertence ao fundo do mar passa a revelar também uma anatomia humana.
Desenhadas inteiramente em caneta BIC, as obras partem de um instrumento cotidiano, originalmente feito para a escrita, para construir imagens através da repetição do gesto. Linha após linha, trama após trama, o desenho acontece quase como a própria água: pelo acúmulo, pela insistência e pelo movimento.
Anatomia das Marés investiga aquilo que carregamos de um lugar que parece externo a nós, mas talvez nunca tenha sido.
Como se, sob muitas camadas de tempo, ainda existisse a lembrança de uma vida anterior às fronteiras que hoje conhecemos. Um território profundo, quase esquecido, onde corpo e água pertenciam à mesma linguagem, e onde outras formas de existência talvez tenham aprendido a habitar o mundo.
Há algo no fundo que nos parece estranhamente familiar.
Como ruínas que não sabemos se vimos ou sonhamos. Como jardins que continuam crescendo sob a água. Como uma memória antiga demais para caber em palavras, mas que o corpo, de alguma maneira, ainda reconhece.
Talvez por isso essas criaturas não apareçam nas obras como invasoras. Elas emergem do próprio corpo. Habitam-no como quem retorna a uma casa antiga. Como vestígios de uma origem submersa que, embora esquecida pela consciência, permanece inscrita em nós.
O mar aqui não é paisagem.
É matéria.
É memória.
É corpo.
É também passagem para aquilo que existiu antes de sabermos nomear o mundo. Para territórios soterrados pelo tempo, histórias adormecidas sob as águas e formas de vida que talvez sobrevivam menos como lembrança do que como intuição.
Talvez exista, dentro de nós, uma espécie de arqueologia do oceano.
E cada concha, coral, peixe ou tentáculo que atravessa esses corpos seja menos uma transformação fantástica do que uma escavação: a tentativa de encontrar, em nossa própria anatomia, os vestígios de algo muito antigo que ainda pulsa, respira e se move conosco.
Talvez o mar não seja o lugar para onde voltamos, mas aquilo de onde nunca saímos.
As obras, e poesias visuais, expressam e conectam os mares de dentro com os mares de fora.